Arte de Amar

Tal como o povo, tal como o juiz
e o selecto senado se rendem à eloquência,
à arte embaladora das palavras
as mulheres não opõem resistência.
Mas os recursos oculta do teu verbo;
evite o teu discurso o tom pedante.
Só um pobre de espírito faria
um pomposo discurso à sua amante.
Muitas vezes foi uma carta causadora
de se tornar odioso o seu autor.
Que o teu estilo seja natural
e as palavras comuns, embora ternas.
À mulher que escreveres procura dar
naturalmente a impressão
de que te está a ouvir falar.
Despoja-te do orgulho
se queres ser amado longo tempo.
O amor ainda jovem é inseguro,
o uso o fortifica e o tempo o torna firme
se o amante o souber alimentar. […]
Que a tua bela se habitue a ti! […]
Que a tua amiga te veja e ouça sempre.
Que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
É no leito, acredita,
que a Concórdia, sem armas, eternamente habita.
A cama é o lugar onde nasce o perdão.
As pombas que ainda há pouco se batiam
unem os bicos e o seu arrolhar
é o amor a falar.
Nasce o prazer naturalmente e não
duma artificial provocação.
Para que jorre a fonte do prazer
é necessário que o homem e a mulher
igualmente o partilhem.
Odeio o coito quando não é mútua
a desvairada entrega dos amantes.
Apressar o termo da volúpia,
acredita, não é conveniente,
mas depois de atrasos que a demorem
chegar à meta insensivelmente.
E antes de encontrares aquela região
onde as carícias têm melhor acolhimento
não te impeça o pudor de a afagar.
Como os raios do sol quando são reflectidos
no espelho da água transparente,
nos olhos da amante, esse trémulo brilho
tu verás cintilar.
Depois virão as queixas, os gemidos,
doces rumores, um murmúrio terno,
as palavras que convêm ao amor.
Mas as velas não abras mais do que a tua amiga
não a deixes para trás e que ela se antecipe
à tua marcha também não lhe concedas.
Que a meta seja atingida ao mesmo tempo.
São guindados ao cume da volúpia
o homem e a mulher quando vencidos
ficam na cama, sem forças, estendidos.
Se o vagar deixa toda a liberdade
e o medo não obriga a apressar o acto,
eis a conduta que convém seguir.
Mas se houver perigo no tardar,
a toda a força mete os remos
e dá de esporas ao cavalo
lançado a toda a brida.
(Arte de Amar, Ovídio (43 a.c. – 17 d.c.))
tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira
.

Belíssima poesia com uma adequação de ricas palavras que me deixam sem saber mais o que falar…
Aplaudo!
É uma poesia de muito significado e o autor é um poeta que não é muito conhecido mas…
Publius Ovidius Naso (nasceu em Sulmo a 20 de Março de 43 a.c.) foi um poeta latino, é mais conhecido nos países de língua portuguesa por Ovídio.
Vivia uma vida boémia, sendo admirado como um grande poeta. No ano 8, foi banido de Roma pelo imperador Augusto por causa de seu livro A Arte de Amar (Ars Amatoria), considerada imoral por Otávio Augusto, o que lhe causou um profundo desgosto até o final de sua vida. Foi nessa época que Ovídio escreveu a sua obra mais famosa: Metamorfoses (Metamorphoses), escrita em hexâmetro dactílico, métrica comum aos poemas épicos de Homero e Virgílio. Faleceu no ano 17 em Tomis, actual Constança, na Roménia.
Ovídio influenciou com seus versos, cheios de suavidade e harmonia, autores tão diversos como Dante, Milton e Shakespeare.
Ovídio é um clássico que exerceu grande influência na revitalização da poesia bucólica e mitológica do Renascimento.
Esta tradução foi feita por Natália Correia (1923-1993) e David Mourão-Ferreira (1927-1996), dois grandes poetas contemporâneos portugueses…